sexta-feira, 5 de junho de 2009

Jovens são os maiores infratores da lei seca em Salvador


A transalvador e a PM não se entendem e eles, pouco informados sobre a questão, abusa dessa combinação perigosa



Eduardo Machado



Nos bairros populares da cidade de Salvador o consumo de bebida e o conjunto dela com a direção por jovens è constante. Donos de bares vendem bebidas sem nenhuma preocupação em respeitar as leis e as conseqüências dessa mistura perigosa. A Transalvador, responsável pela fiscalização do trânsito na cidade e da alcoolemia (LEI SECA), afirma realizar operações em toda Salvador, mesmo assim, as vítimas de colisões, choques, capotamentos e outras ocorrências similares, no total de 45,68% tinha entre 18 e 29 anos. Os jovens soteropolitanos ainda é o predominante entre os infratores e feridos no trânsito.


Em Pau da Lima a situação não é diferente, o comandante da 47º Companhia da Policia Militar, Gilson Lopes, 44 anos, afirma que basta chegar um final de semana para que os bares da comunidade estejam repletos de jovens com inseparáveis copos de cervejas ou outras bebidas. Segundo o comandante a fiscalização do transito é feita, geralmente, pela polícia militar e que a Transalvador quando vêem em Pau da Lima é para registrar ocorrências de acidentes. Para Gilson Lopes o consumo de álcool por jovens é um problema sério e que foge do controle das instituições de segurança.


“A Companhia possui mais demandas do que suporta a estrutura do seu efetivo. Só tem três viaturas para realizar as rondas diárias em um bairro que tem em média 330 mil habitantes e, nos finais de semana, ainda fiscaliza o trânsito”, reclama o comandante. Segundo ele, o quadro é agravado pelo fato da Transalvador não gostar de trabalhar em conjunto com a PM.


Vítima da falta de fiscalização e de projetos educativos para o trânsito, Rogério Santana, de 19 anos, perdeu a perna esquerda em um acidente de moto. Rogério, tirou a carteira de motorista no mesmo ano em que sofreu o acidente. No dia 5 de Abril do ano passado, passou a madrugada no ‘Bar do Negão’, localizado no Largo de Pau da Lima. Ao sair do bar, após muitas cervejas regadas a horas de conversa com os amigos, bateu de frente com uma caminhonete. Quase morreu. Além de perder uma perna, fraturou cinco costelas, possui uma platina na mão esquerda e ainda não se adaptou com a nova vida, “só tenho 19 anos, me arrependo de tudo! Agora sei da importância de não misturar álcool e direção” disse Rogério.


A Assessora de comunicação da Transalvador Maria José afirma que o combate da alcoolemia é feito geralmente nos finais de semana e, de forma mais intencional, nos locais que existem casas de shows. Ela ainda disse que a equipe de fiscalização circula bairros de Salvador como Pau da Lima, Paripe, Brotas e Boca do Rio e que esses lugares possuem aparelhos de redução de velocidade.


Ações que, segundo as estatísticas, têm resultados insatisfatórios. Para Gilson Lopes é necessário que haja um trabalho de fiscalização conjunta da PM com a Transalvador e acompanhado por ações educativas nas comunidades. “As pessoas são violentadas diariamente, falta educação e informação, as conseqüências são também as outras formas de violência como a violência no trânsito, nas ruas”.Conclui o comandante do 47ª Companhia Militar.

Trabalho e “balada” agitam noites dos ambulantes


O comércio que antes era visto somente como um “bico”, agora, também pode ser fonte de renda familiar


Edna Ferreira

Seja no Museu do Ritmo ou no Parque de Exposições, na Concha Acústica ou no Porto da Barra, onde tem festa, tem ambulante. Eles estão sempre presentes como integrantes de um mercado informal que busca na diversão alheia a forma de sobrevivência.

Sem registro em carteira, Terezinha Maria de Jesus, a ‘Teca do Churrasco’, 43 anos, fatura entre R$ 600 e R$ 1.000 reais mensais, vendendo churrasquinhos nas festas em Salvador. Mãe de oito filhos, Teca é analfabeta e não teve oportunidades no mercado formal. Logo cedo descobriu as vantagens e os sofrimentos de ser uma vendedora ambulante.

“Às vezes trabalho apenas uma hora, às vezes a noite toda. Nunca sei quanto vou ganhar no mês, mas entre ficar sem fazer nada e ganhar algum, é melhor trabalhar”, afirma ela.

Para o estudante Cristiano Bonfim, 24 anos, a barraca de Teca é passagem obrigatória."O churrasquinho é uma delícia, e ela está sempre de bom humor” diz, enquanto saboreia um espetinho.

MERCADO POTENCIAL

Salvador é uma cidade movimentada por ter muitos pontos turísticos, atraindo assim, pessoas de todos os lugares. Segundo a Bahiatursa, a Bahia recebe anualmente cerca 4 milhões de turistas, sendo 800 mil estrangeiros. Tal fato gera o crescimento das atividades consideradas informais. Dezenas de pessoas encontram na comercialização de bebidas e petiscos, a alternativa de complementar o salário.

Os baladeiros são o principal alvo das pessoas que atuam no comércio de rua. Nos finais de semana, os eventos musicais disputam os consumidores com os vendedores que ficam do lado de fora dos shows. O movimento começa cedo. Tem início às cinco da tarde, quando eles chegam para a montagem dos pontos de venda. A variedade de opções é grande e com isso, quem sai ganhando é o cliente, que pode escolher como e quanto vai poder gastar para se divertir.

Esses trabalhadores redescobrem na rua, novas possibilidades de sobrevivência, criando suas próprias regras, sendo ambulante e “empresário” ao mesmo tempo.

Não é raro encontrar entre os vendedores pessoas que tem emprego e carteira assinada como Genilson Brito, o ‘Veinho’. Casado, pai de três filhos, durante o dia é oficce boy e ganha um salário mínimo. Como o dinheiro é pouco, aproveita as festas para ajudar no orçamento. Para ele, a vida de vendedor é incerta, mas não dá para ficar sem ter um ganho extra. “Tem dia que rende muito, dia que rende pouco e dia que não rende nada, mas não pode desanimar”, afirma ele, enquanto arruma o isopor para mais uma noite de jornada.


SOLIDARIEDADE

O espaço por eles dividido é competitivo, mas percebe-se um sentimento de coletividade entre eles. Ao lado da barraca de Teca, tem a do João do pastel, a das bebidas de ‘Veinho’ e a do príncipe maluco da ‘Nita’.

Em todos os eventos eles se encontram. Quem tem carro transporta o material necessário para trabalhar, como mesa, banco, chapa, isopor, etc Quem não tem, se vira com um carrinho de mão, ou leva na cabeça mesmo. O importante é trabalhar.

O ritmo de vida dos ambulantes é cansativo. O lucro, imprevisível. Mas uma coisa é certa: a diversão é garantida. O lazer para eles está intimamente ligado ao trabalho que exercem, pois se aproveitam desses momentos de festa para esquecer o cansaço.

“Não tenho dinheiro para gastar em outro lugar. Aqui tem tudo o que gosto, então, prefiro aproveitar para ganhar um extra, e ainda me divertir”, afirma o “João do pastel”.

Aqui, ali e em qualquer lugar



O Vale das Pedrinhas, “primo pobre” do badalado Rio Vermelho, é exemplo de como ambulantes podem fazer a noite boa, barata e perto de casa




Danielí Nunes


Em Salvador, noite é sinônimo de rua e muitas festas. Alguns bairros transpiram esse clima boêmio como é o caso do Rio Vermelho, ícone da noite classe-média soteropolitana. Muito perto dali, pessoas curtem sem precisar gastar muito nem sair de perto da suas residências.

O pé sujo do Vale das Pedrinhas é composto por trabalhadores que sustentam suas famílias vendendo alimentos e bebidas na única praça do bairro, situada no terminal de ônibus. Apesar de não ser nenhuma Cult, a periferia tem seus atrativos.

Em suas barracas improvisadas ou carrinhos esquematizados esses vendedores se articulam para ganhar o pão de cada dia. O melhor é que eles também são moradores do bairro e por conhecer a todos, acabam criando a sua freguesia noturna.

Uil é dono da barraca de bebidas, conta que a musica sempre trás uma boa clientela e suas bebidas exóticas fazem sucesso, capeta, nevada, coquetéis, picão, rabo de arraia entre tantas outras, então ele improvisa com duas caixas de som pra chamar a atenção da galera.

Todas as barracas são simples, mas isso não atrapalha na venda de nenhum desses ambulantes. George de Souza, 26 anos, juntamente com seu irmão Valmir, 29 anos, são proprietários de duas barracas de salgados, uma delas fica na escadaria que dá acesso a bairros conjuntos e outra em frente a barzinho que fica no terminal.

Mesmo tendo estrutura simples com cobertura de lona e botijão de gás para fritar as coxinhas de frango, os irmãos vendem mais de 200 peças na semana e chegam a faturar mais de dois salários mínimos garantindo o sustento da família.

Jair dos Santos é dono do carrinho de churus e conta “vendo mais quando no fim do dia então nem fico até tarde vendendo”. A maioria dos consumidores desse alimento são as crianças, e por esse motivo ele começa a vender às 17hs, são mais de 30 churus vendidos a R$0,70 de segunda a sábado, gerando um lucro semanal de R$150 por semana.

As baianas de acarajé também aparecem em todos os cantos da cidade, a exemplo Dona Cida que arranjou uma lata de tinta um sombreiro e um pequeno tabuleiro para vender seu acarajé, sua renda chega ser mais de R$200 por mês, ainda sim por motivo da idade que não lhe permite trabalhar todas as noites.

ESTATÍSTICAS

De acordo com informações da Central Única dos Trabalhadores da Bahia (CUT) a desaceleração do mercado de trabalho não atingiu o rendimento médio do trabalhador e nem o conduziu para informalidade que teve redução de 1,3 pontos percentuais no primeiro trimestre de 2009. No entanto é necessário deixar evidente que o rendimento continua elevado em ambas às esferas do comercio baiano.

O administrador Anderson Ferreira, trouxe uma opinião mais recente e diz “O mercado informal tende crescer cada vez mais já que crise econômica nem mesmo deixou livre aqueles que trabalhavam de carteira assinada, tudo indica que o centro de Salvador irá ficar mais cheio de vendedores ambulantes...”.

Segundo o técnico da Coordenação de Trabalho e Renda do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Roberto Gonzalez "Apesar da redução do crescimento do emprego, não está havendo troca do trabalho formal pelo informal, o que é um bom sinal, já que o trabalhador mantém o patamar de direitos. O problema é que o Brasil vinha num processo de crescimento de formalização e que está sendo interrompido, mas pelo menos não estamos voltando a uma era de informalidade, o que seria mais difícil de se reverter e demandaria mais longo prazo", afirmou.

Noites Vermelhas


O bairro de Salvador que garante diversão dos alternativos aos conservadores


Por Carolina Câmara


Casas grandes, pouco movimento, ruas largas, esse era o cenário do Rio Vermelho nos anos sessenta. Hoje, com a vida noturna mais diversificada de Salvador, o bairro aglomera em suas praças e ruas, diariamente, centenas de pessoas. Com bares, restaurantes, igrejas, faculdades, teatros e baianas de acarajé, ele oferece aos notívagos uma variedade de gostos, cores e sons.


Desde o século XVI há notícias de habitantes das aldeias Tupinambás no rio Camarogipe, ( camara, flor vermelha, jipe, rio ). Cheio de história como a do náufrago Diogo Álvares, o Caramuru, o bairro é festivo desde 1929, registro da primeira festa popular, 2 de fevereiro, dia de Yemanjá. O início da sua modernização, com o calçamento, correu no mesmo período. Habitado por pescadores, poucos moradores e comerciantes, nos anos cinqüenta, ele foi um local ideal para veraneio. Mais duas décadas, e o famoso Rio Vermelho, foi frenquentado Dorival Caymmi, compositor e cantor, Caetano Velos, o escritor João Ubaldo Ribeiro, os artistas plásticos Carlos Bastos e Carybé, o escultor Mário Cravo Júnior, nos anos setenta. Atualmente é ecleticamente formado por antigos moradores, turistas, comerciantes, empresários, muitos boêmios, formadores de opiniões, artistas e curiosos.


Mesmo com suas praias, o pôr-do-sol, o cheiro de mar constante, é a noite que atrai e aquece a cidade. Varandas das casas transformam-se em pistas de dança, o acarajé da Dinha reúne fãs e curiosos, o teatro Sesi traz seu público, a moderna pirâmide de vidro do Tom do Sabor recebe seus visitantes, para ler, comer e ouvir música, os bares ficam repletos. São mais de 10 restaurantes, quatro pizzarias, 10 bares, rodas de capoeira, som ao vivo nas praças, e muitas opções para dançar indo do reagge do Pinta e Nina ao rock da Boomerangue.


Lugares como a famosa Borracharia, que durante o dia recebe carros e pneus, e a noite vira o undergraound bar dançante todas as sextas e sábados, faz fila de espera na porta. Dentro tem os freqüentadores assíduos, muitos amigos do proprietário, Alberto Lopes, morador do bairro desde que nasceu, fora a presença dos que querem entrar e ver de perto as sucatas, pneus, obras de arte, velas e santos espalhados pelo espaço. Essa mistura cultural, racial, religiosa, a liberdade artística, que caracteriza a noite do Rio Vermelho.Tudo parece possível; comer uma pizza no recente e sofisticado Piolla, gastar R$ 50 reais, sair, andar 30 metros, subir no Pós Tudo para tomar o famoso cérebro de macaco, drink adocicado típico e único do bar, e ter a sorte de ser servido por Seu Sales, que esta há mais de vinte anos da casa, descer, dobrar a esquina e entrar no contido Twist, para dançar até a madrugada ao som da Madona.


A noite normalmente é longa, só sentar na praça para comer um acarajé pode render o encontro com amigos, uma cerveja, a vontade de ouvir os trios de sanfoneiros que andam em volta da Igreja, e assim, esticar. Nem a Lei Seca, recentemente implantada, diminuiu o movimento, o consumo de álcool caiu, os táxis aumentaram, mas o ti ti ti na noite continua agitado.
Além daqueles que gostam da farra à noite, o bairro incorpora muitos trabalhadores, como os guardadores de carro, os garçons dos estabelecimentos, os vendedores ambulantes, as barraquinhas com artesanato nas praças, os distribuidores de fly, divulgando outros eventos, os seguranças nas portas. A fotografia do lugar é de carros e pessoas transitando, cada um com seu ofício, diversão ou trabalho.

Quarentões revivem adolescência na noite baiana




Hoje é cada vez mais comum a presença de pessoas com mais de 40 anos em ambientes que antes eram restritos aos jovens.

Por Carla Cezar



Lápis de olho, blush, batom, uma roupa transada e, claro, um belo salto alto, pronta para sair. Espera! Faltam os acessórios: brincos, pulseiras e colar. Para ele, uma calça Jeans e uma blusa esporte fino. Agora sim, prontos para a balada. Esse é o ritual do casal Miguel Santos, 45, e Marlene Machado, 39, ambos divorciados. Ta achando estranho? Pois é, muitos coroas descobriram que a maturidade é para ser vivida, e estão invadindo a “praia” da moçada e tornado-se os mais novos ‘baladeiros’ do momento, freqüentando barzinhos, casas de show e restaurantes com ambiente musical.


É cada vez mais comum encontrar nas noites baianas pessoas de 45 a 60 anos, em busca de diversão. Os locais mais procurados são os restaurantes, afirmam Valdomiro Santos, 52, e sua esposa, Maria do Carmo, 46, que saem uma vez por semana para jantar e dançar. Valdomiro conta que a dança salvou o casamento. “Meu casamento estava muito desgastado e na tentativa de salvar a relação de 23 anos, eu e minha mulher começamos a fazer aula de dança de salão, desde então saímos sempre com os amigos para dançar”. O local preferido do casal é o restaurante Santíssima Bahia, “porque é um ambiente agradável e familiar. Além de ter espaço para dançar, a música e a comida são de boa qualidade”, afirma Maria do Carmo.
Já a professora Rose Cezar, 46, e suas amigas Cristiane Bonfim, 49, e Judite Santos, 54, todas divorciadas, curtem mais barzinhos, casas de shows e festas populares. Rose, a mais festeira do grupo, conta que adora dançar e já é freqüentadora assídua do Cantarerê e do restaurante Grande Sertão, onde costuma ir para dançar forró e também uma boa seresta. Para elas não existe dia ruim, com roupas valorizando o corpo e uma bela maquiagem, as amigas apostam na dança para se divertir.


A disposição dessas mulheres é de causar inveja a muitos adolescentes. Cristiane conta que apesar delas preferirem um ambiente mais tranqüilo com música para dançar a dois não dispensam a agitação de uma grande festa como o Festival de Verão. Este ano, elas curtiram os quatro dias no camarote. Entre risos e descontração, Judite lembra que foi paquerada por um rapaz que tem a idade de seu filho. “No intervalo das bandas, eu fiquei guardando o lugar das meninas que foram comprar uma bebida, nesse momento um moreno lindo se aproximou e perguntou se podia me conhecer, fiquei super nervosa e comecei a rir. Adorei aquela situação, me senti jovem outra vez” (risos).


Apesar da capital baiana ser conhecida como a terra do Axé e do Pagode, ritmos mais tradicionais estão conquistando o público soteropolitano, principalmente sons como Salsa, Country, Forró, Bolero e muito mais. De acordo com o professor de educação física, Rodrigo Serpa, há um aumento expressivo desses ‘jovens a maioridade’ à procura de academia, principalmente, para se entregar ás aulas de dança de salão. “A maioria dos meus alunos tem entre 45 e 50 anos e são os mais animados, eles utilizam as aulas para se livrar do estresse e saem sempre para dançar. O intuito da grande procura é exatamente para não fazer feio na noite baiana”. E o melhor desta nova moda é que além da diversão os ‘novos bailarinos’ estão também dando um adeus definitivo para sedentarismo.



Se adaptar ou cair fora


Roqueiros baianos se deparam com dificuldades de sobrevivência: ou se adequam à realidade do axé ou migram para outros centros urbanos





Por Camila Fontes





“Bahia de todos os santos, encantos e axés, sagrado e profano, o baiano é carnaval”. Se o compositor Moraes Moreira acertou em cheio no espírito festeiro do povo da Bahia, esqueceu de dizer que esta festa é de uma nota só, onde apenas o axé tem espaço e reconhecimento. Na maior festa do planeta, a não ser em raras e pequenas exceções, nem mesmo o samba consegue subir ou descer as ladeiras da Barra e do Campo grande (circuitos do Carnaval baiano). E se esta monocultura se impõe até entre o mais tradicional estilo musical brasileiro, espaço para o rock, nem pensar.



Carlos Alberto Soares, 40, apaixonado pelo rock, tenta até hoje uma ascensão. Ex-vocalista da Cravo Negro, banda criada em 1987, chegou a ser reconhecido na rua. “Eu passava pelo shopping e as pessoas me reconheciam e cantavam”, relembra. A banda fez um sucesso regional relâmpago mas acabou desaparecendo frente à decisão das rádios e gravadoras fecharem o universo musical baiano em apenas um estilo. Caminho semelhante seguiram outros grupos que ameaçaram decolar, como Diário Oficial, Elite Marginal e Utopia. “A gente se juntava e fazia um movimento para divulgar o rock baiano, pois os meios de comunicação davam mais espaço para o axé”, diz Stize, nome artístico na época.



Sem espaço, por vezes o jeito foi mudar de lado, ou melhor, de estilo, como aconteceu com Tuca Fernandes que trocou o rock da Diário Oficial pelo axé do Jammil.



Para o cantor, após o estouro de Daniela Mercury em 92, os outros estilos musicais simplesmente perderam espaço na Bahia. “Depois de Daniela foi muito difícil manter a banda”, afirma o artista. Na tendência do mercado o jeito foi se adaptar, ou seja, se render ao novo estilo, “mas sem perder a essência do rock”. O Jammil, hoje, é a banda de axé que mais leva a pegada do pop rock. Contudo, Tuca nega ter uma visão puramente comercial, “não foi por dinheiro, mas por amor à música. Trouxe o rock para o Jammil e hoje bandas como Jota Quest e Capital Inicial a respeitam”, afirma.







Nem sempre foi assim





No final da década de 80, apesar de todas as dificuldades com a estrutura e divulgação dos shows, as bandas conseguiam se destacar no cenário regional e lotar casas na capital e em algumas cidades do interior.



A Cravo Negro chegou a fazer shows em quase todas as casas do Rio Vermelho, onde até hoje é ponto de encontro da galera alternativa. A divulgação era feita de boca em boca por quem curtia o som e também pelos componentes da banda, que colavam cartazes nas madrugadas.



“Minha música Cenas de uma tela ficou em primeiro lugar por algum tempo na 96 Fm”, relembra Carlinhos, saudoso. Léo Fera, coordenador musical da empresa na época, diz que o que mais se tocava era o pop rock. Bandas como Nirvana, Soundgarden, Faith No More, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial e Plebe Rude. “As bandas locais também começaram a fazer sucessos”, afirma. “Daí surgiu a idéia de gravar um disco com as bandas baianas: o Rock 96, uma coletânea”, conclui. A estratégia deixou a 96 isolada, pois as outras rádios só tocavam axé, a rádio então foi vendida para a Igreja Universal.



Com o fim do templo baiano do rock, sobrou para os mais ferrenhos e apaixonados pelo estilo a opção da ‘ponte aérea’ para o Sudeste brasileiro, onde tem axé, mas tem espaço também para a MPB, Samba, Blues e tantos outros. Alternativa encontrada por Pitty, a roqueira que participava da banda independente Inkoma, em Salvador, recebeu um convite do produtor Rafael Ramos para gravar um CD solo e morar no Rio. A partir daí a carreira engrenou.



Nem todos conseguiram seguir a mesma trilha. Segundo Carlinhos, a Cravo Negro caiu na mesmice de tocar para o mesmo público nos mesmos lugares e isso foi desgastando a banda baiana. Por divergência de interesses o final foi trágico e Mano Boca, como agora quer ser chamado, se decepcionou com a música e logo entrou em depressão. Após um ano conturbado, participou de uma banda de axé, mas não aguentou e saiu, “não era a minha”, diz. Foi para o Maranhão, onde nasceu, e por lá ficou durante quase 10 anos, às vezes cantando no restaurante da família. Durante a estada em São Luís fez uma mistura de axé com bumba meu boi e chegou a gravar entrevistas para jornais, canais de TV e rádio locais. Em 2002, Boca voltou para Salvador e entrou na Jamboc, onde tocou no carnaval no trio independente de Ricardo Chaves. Agora a banda toca axé em Pernambuco.



Hoje Carlinhos faz trabalho autoral, já tem em torno de 600 músicas de axé, forró, samba e pop rock, todas registradas. Compõe e está gravando o próprio CD em casa com seus aparelhos de som (mesa digital e computador com bateria eletrônica), quando finalizar o trabalho pretende distribuir mil cópias. Ele acredita que não basta ter talento, “tem muita gente boa em Salvador, desde o jazz até o axé. É preciso ter uma estrutura boa, um produtor”, conclui.



Para João Pinto, produtor de Tatau desde 1997, responsável pela agenda da parte comercial, o empresário precisa ter a certeza de que o músico será um sucesso. Para isso, o artista deve ter uma pré-produção, ou seja, ter uma boa banda e uma música que tenha iminência de dar certo. “Antigamente era mais fácil, hoje o empresário quer o artista pronto. É complicado para o investidor tirar dinheiro do próprio bolso e aplicar em um negócio que ele tem dúvida se vai retornar ou não, porque o investimento é grande“, diz. E é exatamente nesta busca do lucro certo que reside a certeza de que tão cedo não haverá espaço para outros sons. Hoje, a cultura musical baiana está para o axé, como a economia brasileira já esteve para o açúcar, o café e tantas outras monoculturas. Vale destacar, no entanto, que a evolução social e cultural, assim como uma maior democratização da sociedade, só aconteceu quando a economia nacional começou a enxergar novos horizontes e a se arriscar mais. Assim, os restritos grupos que monopolizavam o cenário nacional foram substituídos por empresários mais empreendedores. Agora, é esperar e torcer para que a Bahia que conseguiu migrar da monocultura do açúcar para novas frentes econômicas possa dar um salto também na área musical e assistir novas tendências invadirem o cenário, rádios, produtoras e até carnaval de Salvador.

Diversão à beira-mar


Balada na praia é opção de lazer noturno para jovens soteropolitanos



Por Anne Clara Gomes




O luau é uma reunião entre amigos que preferem uma festa mais reservada e tranqüila. Basta um violão, um lugar sossegado, muita disposição, e quem sabe até uma fogueira, para transformar a noite, com um gostinho especial. Para quem quer curtir de um jeito diferente, participar de um luau é uma boa opção. “Me sinto muito melhor. Aqui não tem restrições, nem preconceito. Por ser uma festa entre amigos e que nós mesmos somos “donos”, fazemos o que bem entendemos”, conta Matheus Oliveira, 25.


Mas não somente os participantes da noite ao luar promovem a festa, essa iniciativa já é encontrada até em empresários que investem nesse tipo de negócio. Como é o caso de Mirtz Santos, 38, proprietária da barraca Toca da Índia, no bairro de Itapuã. Ela faz do luau, um grande festejo e fonte de trabalho, misturando compromisso e diversão. “Esse tipo festa aproxima as pessoas de um jeito que não sei explicar. Depois que tive a ideia de fazer um luau, não quis mais parar”, afirma. Apesar desse prazer, ela encontra dificuldades na questão financeira, pois quem frequenta à noite ao luar, levam as bebidas preferidas, e só contam com os serviços dela, quando “beliscam” alguma coisa. “As pessoas que vem aqui, querem mudar a rotina, e encher a cara, não a “pança”, se muito pedem são petiscos para acompanhar a variedade de bebidas que trazem, explica.


Mesmo não obtendo o lucro desejado, Mirtz continua fazendo os luais, afinal ela também se diverte. “Para mim é um prazer. Como não gasto muito, não lucro quase nada, mas não me importo”, garante.


Em outro ponto, no bar do Jailson Souza, 43, em Itaparica, encontra-se também a festa inusitada. Ele fala que como a praia é um local público e as pessoas vão quando querem, curtem a noite com ou sem barraca, não acha um bom investimento, porém não deixa de ganhar uns trocados quando faz. “Meu ganha pão mesmo é durante o dia, não tenho aquela rotina de promover luais todos os dias ou em dias específicos, faço quando dá na telha”, diz.


Ao som da música malandrinha, de Edson Gomes, o estudante e surfista Caio Lucas, 15, em companhia da namorada, Bianca Carvalho, 16, e do seu violão, participam da festa todos os finais de semana, na praia de Itapuã. “Somos da igreja “Ingere Cana”, (risos).


Com o dedilhar ágil e notas românticas da música Amor Azul, composta por Caio, a consonância envolve a namorada e os que estão a sua volta. Para Rodrigo Botelho, 20, o ritual significa a sacralização da vida. “Além de estarmos no embalo de Amor azul, nossos sentidos ampliam nossas reflexões diante da inversão de valores da atualidade”.


O luau não só entorpecem os sentidos. Catharina Vianna, 25, assobia e dá ordem para pausa: “É hora de repensarmos nossas atitudes”. Todos silenciam. Imediatamente Caio para de tocar. Catharina abre o livro de Leonardo Boff: Terapeutas do Deserto. O livro trata da vida de São Francisco de Assis. Ela lê o capítulo que registra o despertar de consciência dele. Os conflitos existenciais que o afligiram, são trazidos ao luau, pela leitura doce e meiga de Catharina.Aproximava-se das 2 horas, alguns corpos embriagados e deitados na areia sob o céu estrelado chamava atenção, a alegria e energia dos presentes no fim da noite. O entusiasmo, a sensação de liberdade e a espera do próximo final de semana, deixava claro o quanto a noite foi inesquecível e que ficará para sempre na memória daqueles garotos.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Cinema, literatura e música na madrugada da cidade

Ainda são poucas as opções de diversão no final da noite
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Por Ana Flávia Souza


A cidade que respira festas o ano inteiro, dorme cedo. Para ir ao teatro, ao cinema ou a exposições, é preciso sair de casa entre 18 e 22h. Após esse horário, o soteropolitano que não se contenta apenas com os shows de axé e conversas regadas a cerveja e petiscos nos bares da cidade encontra dificuldade para encontrar outras opções de lazer.


Os motivos para isso são os mais variados possíveis. Vão desde a falta de um calendário que preveja opções para madrugada, até a dificuldade de se locomover pela cidade. Enquanto no Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte o transporte público funciona até a madrugada, em Salvador a grande maioria dos ônibus vão para a garagem antes da meia noite.


Ao longo do ano, é possível encontrar eventos como festivais de música, de poesia e de teatro, mas são esporádicos e, às vezes, restritos a um grupo seleto de pessoas. Quando é possível driblar todos estes obstáculos, o custo provocado pela falta de estrutura se torna mais um impeditivo. “Adoro ir aos concertos da Orquestra Sinfônica da Bahia. Mas com a dificuldade de ônibus à noite muitas vezes deixo de ir por falta de dinheiro. O programa fica restrito pra quem pode pagar um táxi, ou tem carro pra se deslocar”, reclama o estudante universitário, Diogo Caribé.


Diante a falta de opções no consumo de cultura e arte, ir ao cinema pode ser uma boa saída, mas são poucos as salas com horários na madrugada. Atualmente, só os grandes shoppings oferecem essas sessões, mas com pouca frequência. No Multiplex, do Shopping Iguatemi, às sextas feiras e vésperas de feriado é possível assistir a sessões que começam às 00:00h. “Acho que esta deveria ser uma prática mais comum. Com o ritmo de trabalho, nem todos têm tempo para ir ao cinema no horário convencional. Acho que seria uma boa oportunidade para as salas, pois todas as vezes que peguei a sessão da meia noite, o cinema estava lotado”, diz o jornalista Nilton Lopes.


Na opinião da atriz Mônica Santana, a redução do número de ônibus nas ruas durante a madrugada e a miopia dos empresários não são os únicos motivos para que as opções culturais sejam realizadas cada vez mais cedo. “Sem dúvida, a falta de segurança é um fator importante. Há cinco ano, alguns teatros, como o Vila Velha e o Teatro do SESI tinham sessões à meia noite. Lembro que as sessões ficavam cheias. Público para isso existe, mas hoje, se a sessão for um pouco mais tarde as pessoas não vão porque têm medo da violência”, declara.


Na contra-mão desta tendência, livrarias apostam em saraus e espetáculos musicais durante a madrugada. É o caso, por exemplo, da Midialouca onde é possível ler livros, comprar cd´s e dvd´s durante todos os dias da semana, finais de semana e feriado até à 1 hora.


Para o funcionário Alexandre Fernandes, o fato de Salvador não possuir uma vida cultural intensa à noite acaba criando boas oportunidades para a loja. “Nós temos uma clientela fiel, que procura um programa mais tranqüilo e intimista”, diz. Segundo ele, a maioria dos clientes é de artistas e músicos, turistas brasileiros e estrangeiros.

Fecha o bar que o buzu vai passar!

Soteropolitanos voltam cedo para casa porque não encontram transportes disponíveis para a volta

Por Alice Coelho

É uma terça-feira de março: um dia de movimento nos bares da orla de Salvador. A cidade turística, com quase 3 milhões de habitantes e com fama de festeira dorme cedo. O que acontece na capital, que recebeu cerca de 3,5 milhões de visitantes em 2008 – número maior que a população local, é que sua vida noturna é curta.

A noite que deveria ser badalada, acaba antes que o cliente queira ir embora. “A maioria dos bares da orla fecha antes da meia noite”, afirma a estudante Priscila Ribeiro.

Acompanhada de mais dois amigos, a estudante já se deparou com situações em que o bar encerrou as atividades antes da vontade dela e de seus colegas irem embora. O que fizeram? Foram frustrados para casa ou decidiram por comer o feijão, o mocotó, a rabada e outros. As opções foram os bares 24 horas, postos de gasolinas e bares de bairro.

Vantagem para os bares 24 horas. Ao passo que os estabelecimentos convencionais alegam que não há clientes para além da meia noite, Sandro Leite, que gerencia um estabelecimento desse tipo no Rio Vermelho, diz que público tem, mas que a questão maior é a dificuldade de transporte. “Também tem que ter ônibus”, diz o gerente. “Quem vem para cá, são os funcionários dos bares vizinhos, gente que vem de aniversário, dos outros bares”, completa. Segundo ele, quem sai do trabalho entre 12h e 3h da manhã tem que ficar fazendo hora até o ônibus passar.

O gerente de bar Sandro Leite garante que há público para a noite em SalvadorJá Joseval Faustino, gerente de um bar da orla, não consegue ver o problema do transporte coletivo. Segundo ele, os funcionários não encontram empecilhos para voltar para casa. Usam os ônibus da madrugada - o pernoitão ou fazem uma “vaquinha” para ir de táxi.


Há uma forte evidência de que não há preocupação da maioria dos empresários com o transporte seguro dos funcionários na volta para casa. O garçon Joabe Alves dos Santos, por exemplo, trabalha no Rio Vermelho e sai entre 12h e 2h da manhã em direção ao bairro Plataforma usando transporte clandestino.

Essa dificuldade mobilizou a Abrasel (Associação de Bares, Restaurantes e Similares), a procurar pela Secretaria de Transporte Público do município. Um mapeamento foi solicitado pela secretaria à Associação e deve ser finalizado até Junho desse ano. “É a mais clara evidência que há mercado”, pontua o presidente da Abrasel, Luiz Marques. Para ele, a ausência de transporte é o fator limitador dessa demanda. “As pessoas não tem como ir e o colaborador tem dificuldade de voltar”, assinala.