
Roqueiros baianos se deparam com dificuldades de sobrevivência: ou se adequam à realidade do axé ou migram para outros centros urbanos
Por Camila Fontes
“Bahia de todos os santos, encantos e axés, sagrado e profano, o baiano é carnaval”. Se o compositor Moraes Moreira acertou em cheio no espírito festeiro do povo da Bahia, esqueceu de dizer que esta festa é de uma nota só, onde apenas o axé tem espaço e reconhecimento. Na maior festa do planeta, a não ser em raras e pequenas exceções, nem mesmo o samba consegue subir ou descer as ladeiras da Barra e do Campo grande (circuitos do Carnaval baiano). E se esta monocultura se impõe até entre o mais tradicional estilo musical brasileiro, espaço para o rock, nem pensar.
Carlos Alberto Soares, 40, apaixonado pelo rock, tenta até hoje uma ascensão. Ex-vocalista da Cravo Negro, banda criada em 1987, chegou a ser reconhecido na rua. “Eu passava pelo shopping e as pessoas me reconheciam e cantavam”, relembra. A banda fez um sucesso regional relâmpago mas acabou desaparecendo frente à decisão das rádios e gravadoras fecharem o universo musical baiano em apenas um estilo. Caminho semelhante seguiram outros grupos que ameaçaram decolar, como Diário Oficial, Elite Marginal e Utopia. “A gente se juntava e fazia um movimento para divulgar o rock baiano, pois os meios de comunicação davam mais espaço para o axé”, diz Stize, nome artístico na época.
Sem espaço, por vezes o jeito foi mudar de lado, ou melhor, de estilo, como aconteceu com Tuca Fernandes que trocou o rock da Diário Oficial pelo axé do Jammil.
Para o cantor, após o estouro de Daniela Mercury em 92, os outros estilos musicais simplesmente perderam espaço na Bahia. “Depois de Daniela foi muito difícil manter a banda”, afirma o artista. Na tendência do mercado o jeito foi se adaptar, ou seja, se render ao novo estilo, “mas sem perder a essência do rock”. O Jammil, hoje, é a banda de axé que mais leva a pegada do pop rock. Contudo, Tuca nega ter uma visão puramente comercial, “não foi por dinheiro, mas por amor à música. Trouxe o rock para o Jammil e hoje bandas como Jota Quest e Capital Inicial a respeitam”, afirma.
Nem sempre foi assim
No final da década de 80, apesar de todas as dificuldades com a estrutura e divulgação dos shows, as bandas conseguiam se destacar no cenário regional e lotar casas na capital e em algumas cidades do interior.
A Cravo Negro chegou a fazer shows em quase todas as casas do Rio Vermelho, onde até hoje é ponto de encontro da galera alternativa. A divulgação era feita de boca em boca por quem curtia o som e também pelos componentes da banda, que colavam cartazes nas madrugadas.
“Minha música Cenas de uma tela ficou em primeiro lugar por algum tempo na 96 Fm”, relembra Carlinhos, saudoso. Léo Fera, coordenador musical da empresa na época, diz que o que mais se tocava era o pop rock. Bandas como Nirvana, Soundgarden, Faith No More, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial e Plebe Rude. “As bandas locais também começaram a fazer sucessos”, afirma. “Daí surgiu a idéia de gravar um disco com as bandas baianas: o Rock 96, uma coletânea”, conclui. A estratégia deixou a 96 isolada, pois as outras rádios só tocavam axé, a rádio então foi vendida para a Igreja Universal.
Com o fim do templo baiano do rock, sobrou para os mais ferrenhos e apaixonados pelo estilo a opção da ‘ponte aérea’ para o Sudeste brasileiro, onde tem axé, mas tem espaço também para a MPB, Samba, Blues e tantos outros. Alternativa encontrada por Pitty, a roqueira que participava da banda independente Inkoma, em Salvador, recebeu um convite do produtor Rafael Ramos para gravar um CD solo e morar no Rio. A partir daí a carreira engrenou.
Nem todos conseguiram seguir a mesma trilha. Segundo Carlinhos, a Cravo Negro caiu na mesmice de tocar para o mesmo público nos mesmos lugares e isso foi desgastando a banda baiana. Por divergência de interesses o final foi trágico e Mano Boca, como agora quer ser chamado, se decepcionou com a música e logo entrou em depressão. Após um ano conturbado, participou de uma banda de axé, mas não aguentou e saiu, “não era a minha”, diz. Foi para o Maranhão, onde nasceu, e por lá ficou durante quase 10 anos, às vezes cantando no restaurante da família. Durante a estada em São Luís fez uma mistura de axé com bumba meu boi e chegou a gravar entrevistas para jornais, canais de TV e rádio locais. Em 2002, Boca voltou para Salvador e entrou na Jamboc, onde tocou no carnaval no trio independente de Ricardo Chaves. Agora a banda toca axé em Pernambuco.
Hoje Carlinhos faz trabalho autoral, já tem em torno de 600 músicas de axé, forró, samba e pop rock, todas registradas. Compõe e está gravando o próprio CD em casa com seus aparelhos de som (mesa digital e computador com bateria eletrônica), quando finalizar o trabalho pretende distribuir mil cópias. Ele acredita que não basta ter talento, “tem muita gente boa em Salvador, desde o jazz até o axé. É preciso ter uma estrutura boa, um produtor”, conclui.
Para João Pinto, produtor de Tatau desde 1997, responsável pela agenda da parte comercial, o empresário precisa ter a certeza de que o músico será um sucesso. Para isso, o artista deve ter uma pré-produção, ou seja, ter uma boa banda e uma música que tenha iminência de dar certo. “Antigamente era mais fácil, hoje o empresário quer o artista pronto. É complicado para o investidor tirar dinheiro do próprio bolso e aplicar em um negócio que ele tem dúvida se vai retornar ou não, porque o investimento é grande“, diz. E é exatamente nesta busca do lucro certo que reside a certeza de que tão cedo não haverá espaço para outros sons. Hoje, a cultura musical baiana está para o axé, como a economia brasileira já esteve para o açúcar, o café e tantas outras monoculturas. Vale destacar, no entanto, que a evolução social e cultural, assim como uma maior democratização da sociedade, só aconteceu quando a economia nacional começou a enxergar novos horizontes e a se arriscar mais. Assim, os restritos grupos que monopolizavam o cenário nacional foram substituídos por empresários mais empreendedores. Agora, é esperar e torcer para que a Bahia que conseguiu migrar da monocultura do açúcar para novas frentes econômicas possa dar um salto também na área musical e assistir novas tendências invadirem o cenário, rádios, produtoras e até carnaval de Salvador.