sexta-feira, 12 de junho de 2009

A segurança pública em Salvador pede socorro

Por: Valdeck Almeida de Jesus

“Eu me sinto segura, pois sempre ando com Deus no coração” (Cristina Veloso (foto), delegada plantonista da 4ª Delegacia – São Caetano)

Morar ao lado de uma delegacia de polícia gera uma sensação de segurança, que pode acabar na primeira rebelião, tentativa de resgate de presos ou problema similar. A tranquilidade se vai e ficam, em seu lugar, o medo e a tensão.

A Delegacia de São Caetano ocupa um prédio de dois andares. A sala de espera tem cerca de quatro metros por seis, com cadeiras, TV, ar condicionado e computadores. O distrito policial de Periperi tem guarita, garagem para mais de 30 veículos, sala de espera com ar, sala para delegado e de triagem de queixas, tudo contrastando, nas duas unidades, com o espaço reservado às celas. Os grupos de presos se amontoam em saletas de 3m por 4m. Por isso, nem sempre todos vão dormir no mesmo horário: não tem lugar suficiente. Eles se revezam, fazem escala. Enquanto uns dormem, outros ficam de vigília.

Durante o dia não há atividade de ressocialização. O tempo é gasto com bate-papo e as paredes são usadas como tela: palavras soltas, rabiscos incompreensíveis e números que marcam a passagem dos dias se misturam a orações, pensamentos de liberdade e frases de revolta. Este é o cotidiano deles. As roupas ficam penduradas nas grades e em cordas estendidas fora das celas. É a imagem daquilo em que se transforma o homem, resultado da injustiça social que massacra e transforma as pessoas em seres quase inumanos.

De acordo com o Sociólogo Jorge Hilton, 32, é necessário modernizar as instituições e o sistema prisional. Para ele, o controle social em matéria de segurança pública precisa avançar do atual modelo de democracia representativa para a democracia participativa. “O Programa Nacional de Segurança Pública e Cidadania (Pronasci), lançado em 2007 pelo governo federal, deve ser monitorado pela sociedade civil e universidades”, afirma.

PLANTÃO
Apesar de Salvador ser uma cidade muito violenta, à noite o movimento cai nos distritos policiais visitados. As ocorrências mais comuns: queixas de perda de documento, agressões, ameaças, arrombamentos e tentativas de homicídio. Cristina Veloso conta que 70% das reclamações em São Caetano corresponde a agressão ou ameaça. Quando ocorre homicídio, o efetivo de duas viaturas não dá conta do serviço. Nos casos graves como morte, acidente ou perseguição, é necessário “pedir reforço da Polícia Militar, do Comando de Operações Especiais, para deslocarem veículos de outras áreas”, diz a delegada.


Outro problema é a falta de cursos de reciclagem e pós-graduações. “Os poucos cursos oferecidos são pagos pelos próprios servidores”, afirma Cristina Veloso. Ela portava colete à prova de bala e revólver quando chefiava de unidades do interior, “mas quando vim trabalhar em Salvador não me deram, sob a alegação de que aqui não precisava”, pontua.

Marival Oliveira (foto), 47 anos, coordenador da delegacia de Periperi, trabalha a 22 anos na polícia e reclama de “melhores condições de trabalho, bem como armamento moderno”. Na atividade, ele sente necessidade de condicionamento físico e confessa “faço halterofilismo e academia por conta própria”.

Insegurança
O delegado Giovani Paranhos dos Santos, 52 anos, plantonista da 5ª DP (Periperi), dez anos de polícia, trabalha 24 horas por 72 de folga. Mora em Itapuã e dirige o próprio carro, “sempre de vidros fechados”, revela. Ele já foi assaltado, mas não reagiu. Sobre a segurança em Salvador, orienta “não atender celular em qualquer lugar, não carregar dinheiro em grandes quantias, andar sempre com os vidros do carro levantados”.


“Causos”
Um caso pitoresco que a delegada se recorda aconteceu numa cidade do interior. Ela apurava o furto de três vacas. As pistas indicavam que os animais tinham passado por um vilarejo e seguido em direção à fazenda de uma pessoa importante da região. Localizado, o proprietário da fazenda alegou não ter animal sem documentação e sem o “ferro”, marca com as inicias do dono. O verdadeiro dono das vacas era cego e não tinha “ferrado” seus animais, mas relatou que as vacas atendiam ao chamado dele, pelos nomes de Pintada, Bolinha e Manchada. Quando o queixoso chegou ao curral e chamou pelos nomes, as vacas saíram do rebanho e vieram para próximo do seu verdadeiro dono. O crime foi desvendado e os suspeitos foram ouvidos e autuados.
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(*) VALDECK ALMEIDA DE JESUS nasceu em Jequié, Bahia, em 1966. Acadêmico de Jornalismo, trabalha, atualmente, como funcionário público, editor de livros e palestrante. Publicou os livros Memorial do Inferno: a saga da família Almeida no Jardim do Éden, Feitiço contra o feiticeiro, Valdeck é Prosa e Vanise é Poesia, 30 Anos de Poesia, Heartache Poems, dentre outros. Participa de mais de 30 antologias. É organizador e patrocinador do Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus de Poesia, desde 2005. Expõe seus textos no site Galinha Pulando.
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quarta-feira, 10 de junho de 2009

Lei Seca engatinha para o primeiro ano.


Os primeiros passos foram positivos, como a redução de acidentes e maior disciplina dos motoristas.Quase um ano depois a fiscalização afrouxa e condutores relaxam.





Por Rachel Barretto


A Lei não completou um ano e já está caducando. Apesar de conquistas, como reduzir a mais da metade o número de acidentes de trânsito no primeiro mês de vigência,hoje,assim como muitos idosos,já não é respeitada.Os bafômetros, forte aliados no combate aos abusos etílicos foram aposentados ou esquecidos em prateleiras. E até mesmo o respeito que impunha nos primeiros momentos, para boa parte dos motoristas já faz parte da história.
Efetivada em Junho de 2008 a lei seca que proíbe o consumo da quantidade de bebida alcoólica superior a 0,1 mg de álcool por litro de ar expelido no exame do bafômetro por condutores de veículos teve como uma de suas primeiras vítimas na cidade o estudante Alexandre Siqueira,23 anos.Ao sair de uma festa na Pituba, foi surpreendido com a apreensão da carteira de habilitação, por dirigir alcoolizado alguns dias depois da lei entrar em vigor.
Passado um ano da implementação, a situação é bem diferente. O próprio Alexandre conta que a lei foi só um alarde inicial “Eu digo isso porque nesse ano eu já saí de festas à noite e não tenho visto blitz nas ruas. É mais uma prova que aqui tudo acabou em pizza” conclui Alexandre.
Já o comerciante Jaime Teixeira,acredita que o problema esteja na falta de campanhas de conscientização “Acho que o país podia aproveitar o investimento caro numa lei que tinha tudo para dar certo,e criar campanhas que conscientizem o motorista que sua própria vida está em risco com o consumo excessivo de álcool” conclui Teixeira.
Um balanço divulgado pela Transalvador mostra que o número de acidentes com vítimas no trânsito, no primeiro mês de vigência da lei, caiu de 1100 para 600 ocorrências. Esse ano o número já voltou a subir para 800 ocorrências. “Se isso continuar todo o mérito alcançado no início será jogado fora” diz o especialista em trânsito da Polícia Militar, capitão André Pereira Borges. Uma perda significativa, não apenas em relação aos acidentes que estão voltando a acontecer mais também em números. Afinal,deixar que a lei esvasie, simplesmente equivale a jogar os R$ 15 milhões investidos na lei e na estrutura para que pudesse ser cumprida na lata do lixo.
Nos hospitais também houve mudanças por causa da lei.Logo depois de implantada os acidentes reduziram 60%.O Hospital Geral do Estado, na capital baiana recebeu 62% menos de acidentados no trânsito.Hoje, o número de acidentes continua reduzido em 29%, mas este número é metade do registrado no mesmo período do ano passado. Em 2003 a jovem Paula Oliveira, na época com 20 anos,ficou com sequelas de uma acidente de moto que aconteceu quando ela e o namorado saiam de uma festa “Ele estava embriagado e perdeu o controle da moto, na queda ele morreu na hora e minha sobrinha teve um traumatismo craniano e uma lesão na coluna. Depois do acidente ela teve que aprender tudo de novo, a falar e andar. Até hoje, ela ainda está nesse processo de reabilitação, e melhorando cada dia um pouquinho” conta a tia de Paula, Vera Lúcia.
Esquecer a lei e permitir que as pessoas voltem a dirigir embreagadas é simplesmente fechar os olhos para casos como o de Paula Oliveira e voltar a conviver com números cada vez maiores de acidentes provocados pelo consumo irresponsável de álcool. O especialista em trânsito da Polícia Militar, capitão André Pereira conclui afirmando que para a lei seca ser eficiente é necessário mais fiscalização “Eu sinto falta de campanhas educativas. Ainda que não tenham tanto impacto como as ações diretas, a exemplo de blitz, elas são necessárias para ajudar a criar uma cultura contrária a combinação bebidas e direção. “Só com um conjunto de medidas é que realmente vai haver uma redução nas mortes de trânsito causadas por alcoolizados.”




“Um dia estava voltando de uma confraternização do trabalho, quando uma blitz e fiquei com medo de parar, então pensei rápido e não parei na blitz,os guardas vieram atrás de mim até que eu peguei um atalho e parei o carro uma rua deserta e fui embora. No dia seguinte me ligaram questionando o fato de ter fugido da blitz, e eu disse “olha meu carro ontem foi roubado.”
Ednaldo Gomes, 42 anos.



“Sempre que saiu com um grupo de amigos,nós elegemos alguém para voltar dirigindo. As vezes a pessoa aceita a indicação meio de contra-gosto mas sempre fazemos isso, não só pela lei seca mas pra garantir que todos cheguem bem, já que além da bebida o sono também é um fator de risco no trânsito”
Paulo Mathias,48 anos.