sábado, 20 de junho de 2009

Saúde e boa forma na noite soteropolitana

Henrique Casais

O horário noturno, além de ser mais agradável, é uma opção para quem trabalha durante o dia de manter a forma e saúde através de exercícios físicos.

A nova mania da noite em Salvador é transformar praças e espaços públicos em verdadeiras academias. Em bairros, como a Barra e até mesmo na Avenida Centenário já é comum encontrar pessoas de todas as idades que praticam atividade física quando começa a anoitecer. Principalmente com novas calçadas e novas iluminações que vem atraindo gente para esse lugar.
Para alguns, essa preferência é ocasionada pelo frescor que invade a cidade após o pôr do Sol, outros encontram na noite o tempo necessário distante das cobranças e do ritmo profissional, mas a maioria concorda: esta nova mania só é possível graças às melhorias que algumas regiões experimentaram no último ano.
Para o Fabiana Fontes, correr na rua ou fazer o alongamento na praia é mais agradável à noite. Afinal, nesse período é mais suportável do que um dia quente que possui 30 graus de temperatura. “Sem dúvida, fazer o exercício à noite é bem mais prazeroso. A gente sua menos, sente menos calor, mas o principal motivo de estar aqui agora é porque, normalmente, durante o dia não tenho tempo para me exercitar”, diz Fabiana
Já a advogada Paula Almeida, 25 anos o sua história é diferente. Formada em direito, estuda pela manhã e trabalha à tarde. Na tentativa de manter o corpo saudável, reserva quatro noites toda semana para os exercícios na Academia e somente às quartas, vai à praia da Barra fazer alongamentos junto com amigos sob a supervisão de um professor de educação física.
A rotina de Vinicius Muniz, 20 anos, também vive na mesma rotina. Estuda pela manhã e faz estágio à tarde. “Faço duas horas de atividades físicas todos os dias. Entre os meus exercícios está a corrida na areia da Barra. Eu nem teria tempo de fazer isso pela manhã.” O corre corre do trabalho só nos permite exercitar neste horário”, diz Muniz. “Acho válido me exercitar nesse horário. É muito melhor do que ficar parado” conclui.
Paulo Bahia, professor de educação física, é integrante da Triação, que é uma assessoria esportiva que apóia qualquer tipo de esporte e condicionamento físico. Com esse objetivo, ele marca com seus alunos associados na praia, todas as quartas às 20 horas próximo ao Farol da Barra. Nesses dias, diversos trabalhos de alongamentos e corrida são praticados na areia da praia.
Segundo Paulo Bahia, é importante praticar à noite porque a pessoa tem mais disposição do que pela manhã. O rendimento é melhor e menos desgastante. “Isso porque tem gente que acorda 5 da manhã para fazer exercícios deixando-o mais cansado para trabalhar”. Além das vantagens enumeradas pelo professor, o esporte noturno acaba também ajudando a eliminar parte do estresse vivido no trabalho durante o dia.
Por outro lado, este mesmo cansaço acaba contribuindo de forma decisiva para o elevado índice de faltas aos treinos. “O cansaço diário faz com que muitos acabem não comparecendo a todos os treinos. Muitas pessoas até aparecem. Porém enquanto alguns chegam supurativos, outros se sentem indispostos para os exercícios”, diz o professor de educação física, Diogo Almeida.
Para aqueles que querem ficar longe das ruas, de olho nesta tendência para a ginástica noturna, algumas academias já começam a apostar na ampliação do horário de funcionamento. Na Academia Tony Granjo, localizada no Canela, por exemplo, o horário de funcionamento vai até as 22:00.
Ana Maria, 60 anos, faz musculação nessa academia à noite por sugestão do filho que também é “Personal treiner”. Antes do trabalho, ela faz aeróbica pela manhã bem cedo. Ela também não dispensa o Cooper durante a noite quando não vai a academia. Corre duas vezes ao dia, do Campo Grande até a Barra e se preocupa muito em manter a forma por causa da idade.
Para o médico cardiologista Luiz Alberto Ritt, não existe nenhuma restrição para a prática física durante a noite. Porém, é necessário fazer um exame médico. Ele afirma que pessoas já sofreram ataques cardíacos por causa de esforço físico independendo do horário praticado. Acrescenta que antes de começar uma atividade física, deve-se procurar um avaliador físico competente e medir a sua pressão cardíaca. E é fundamental uma revisão do corpo periodicamente. “Pessoas acima de 45 anos devem fazer exames de rotina. Já para os hipertensos e outros casos patológico, é importante que a pessoa pratique exercícios diariamente. Assim ela pode evitar maiores danos à saúde”, diz Ritt.
A noite de Salvador não é somente festas, é também saúde e cada vez mais as pessoas estão descobrindo esse espaço e este tempo para cuidar do corpo, combater o estresse, livrar-se da rotina e, por conseqüência, melhorar a qualidade de vida e o humor perante o mundo.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Fecha o bar que o buzu vai passar!

Por Alice Coelho

É uma terça-feira de março: um dia de movimento nos bares da orla de Salvador. A cidade turística, com quase 3 milhões de habitantes e com fama de festeira dorme cedo. O que acontece na capital, que recebeu cerca de 3,5 milhões de visitantes em 2008 – número maior que a população local, é que sua vida noturna é curta.

A noite que deveria ser badalada, acaba antes que o cliente queira ir embora. “A maioria dos bares da orla fecha antes da meia noite”, afirma a estudante Priscila Ribeiro.

Acompanhada de mais dois amigos, a estudante já se deparou com situações em que o bar encerrou as atividades antes da vontade dela e de seus colegas irem embora. O que fizeram? Foram frustrados para casa ou decidiram por comer o feijão, o mocotó, a rabada e outros. As opções foram os bares 24 horas, postos de gasolinas e bares de bairro.

Vantagem para os bares 24 horas. Ao passo que os estabelecimentos convencionais alegam que não há clientes para além da meia noite, Sandro Leite, que gerencia um estabelecimento desse tipo no Rio Vermelho, diz que público tem, mas que a questão maior é a dificuldade de transporte. “Também tem que ter ônibus”, diz o gerente. “Quem vem para cá, são os funcionários dos bares vizinhos, gente que vem de aniversário, dos outros bares”, completa. Segundo ele, quem sai do trabalho entre 12h e 3h da manhã tem que ficar fazendo hora até o ônibus passar.

O gerente de bar Sandro Leite garante que há público para a noite em SalvadorJá Joseval Faustino, gerente de um bar da orla, não consegue ver o problema do transporte coletivo. Segundo ele, os funcionários não encontram empecilhos para voltar para casa. Usam os ônibus da madrugada - o pernoitão ou fazem uma “vaquinha” para ir de táxi.

Joabe utiliza transporte clandestino para ir do Rio Vermelho para PlataformaHá uma forte evidência de que não há preocupação da maioria dos empresários com o transporte seguro dos funcionários na volta para casa. O garçon Joabe Alves dos Santos, por exemplo, trabalha no Rio Vermelho e sai entre 12h e 2h da manhã em direção ao bairro Plataforma usando transporte clandestino.

Essa dificuldade mobilizou a Abrasel (Associação de Bares, Restaurantes e Similares), a procurar pela Secretaria de Transporte Público do município. Um mapeamento foi solicitado pela secretaria à Associação e deve ser finalizado até Junho desse ano. “É a mais clara evidência que há mercado”, pontua o presidente da Abrasel, Luiz Marques. Para ele, a ausência de transporte é o fator limitador dessa demanda. “As pessoas não tem como ir e o colaborador tem dificuldade de voltar”, assinala.

Uma outra questão que não pode deixar de ser mencionada é a segurança. O bar que Faustino administra, por exemplo, finaliza seu expediente entre 1h30 e 2h da manhã, quando o gerente diz não existir mais clientela. Ele considera arriscado deixar o bar aberto na madrugada. “Depois de um certo horário começa a aparecer gente estranha”, diz ele. “Eles pensam somente na segurança deles. Não é por nós”, rebate a estudante Priscila Ribeiro.

Sob a perspectiva da presidência da Abrasel, a segurança também é um dos motivos que inibe a clientela dos bares. Marques aponta um outro fato: a questão da Lei Seca. Nesse sentido, ele reforça a necessidade de melhorar o transporte público. “Não tenho dúvida que aumentaria a circulação de renda”, declara.

Salvador precisa acordar. Ou melhor, a cidade que recebe mais de 3 milhões de turistas, não pode dormir tão cedo.

Sexo sem cama

O “pistão”, no Jardim de Alah, tem espaço para encontros casuais, transas dentro do carro e sexo hard, tudo em público, à luz da lua

Maria Ísis [mariaisiss@gmail.com]

Engana-se quem pensa que o sol é requisito para que as pessoas visitem a praia do Jardim de Alah. Logo após as 18 horas, a faixa de areia próxima à parede de pedras é freqüentada por homo e heterossexuais para realizar fetiches e desejos eróticos, seja pela grana curta para o motel, para encontrar alguém disponível para programas, no mínimo, inusitados ou exercitar o voyerismo.

No “pistão”, como é conhecido o estacionamento que fica próximo, as carícias são menos intensas e ocorrem dentro dos carros. A maioria dos frequentadores é homem, na faixa etária dos 20 aos 50 anos. Boa parte deles chega sozinho e encontra ali mesmo um parceiro sexual. O movimento de carros circulando é constante. Alguns estacionam os veículos próximos a outros, abaixam o vidro, conversam e convidam para um encontro. Ao redor, os transeuntes acompanham curiosos a movimentação. Os mais exibidos chegam a se masturbar.

“O que mais gosto é que aqui você tem liberdade para fazer o que quiser. Se acontecer de rolar uma transa, ótimo. Se não acontece, não deixa de ser divertido também”, diz o cearense Mário*, 23 anos, que em todas as visitas à capital baiana – uma média de oito por ano – faz questão de comparecer ao pistão.

Perto dali, o tapete de grama, onde ficam coqueiros, e que serve de espaço para exercícios físicos e de relaxamento durante o dia, à noite, tem uma destinação bem menos inocente. O chamado “tapetão” funciona como um local para o encontro inicial dos que chegam a pé. Os aparelhos de musculação funcionam como banquinhos, são pontos de encontro, e os coqueiros servem de “camas verticais” para apoio dos casais mais desinibidos.

É possível ver garotos de programa, jovens ainda vestidos com a roupa do trabalho e pais de família. Em menor número, casais héteros também aparecem. “Já fui para transar com meu namorado. Fomos com o carro dos pais dele. Achei excitante a experiência, mas não saímos do veículo”, conta Larissa*, 20 anos, estudante.

Com espaço garantido para o exibicionismo, o voyeurismo e o dogging (vide box), além de uma barraca de praia que vende cerveja e petisco até de madrugada, o pistão é um destes lugares que passam despercebidos, mas possuem muitos atrativos. “Não podemos ter uma visão preconceituosa. Praticar sexo em público é um fetiche, um comportamento normal, comparável a vestir uma fantasia ou utilizar acessórios sexuais, como algemas, por exemplo”, aponta a psicóloga Ivani Ribeiro.

O único cuidado é garantir que os observadores da transa, se existirem, não se sintam constrangidos ou animados a ponto de tentarem interferir no namoro. Praticar sexo em público, apesar de não ser desvio comportamental, se enquadra como atentado ao pudor, com pena de reclusão de seis a dez anos prevista nos artigos 213 e 214 do Código Penal. Mas no tapetão isso não parece ser um problema. Afinal, o espaço existe há anos e nunca os namorados foram presos ou submetidos a constrangimentos moralistas.

Dogging – Prática sexual cunhada na Inglaterra em que os adeptos transam dentro ou fora de automóveis, com uma platéia ao redor. A brincadeira mistura exibicionismo, voyeurismo e swing. Deve obrigatoriamente ser feita ao ar livre e à noite. Durante a transa, os ocupantes acendem a luz interna ou os faróis. O público não pode abrir a porta ou tocar nos protagonistas do jogo, a menos que sejam convidados. Nesse caso, a senha é a abertura das janelas.

Se oriente – Já existe um mapa para quem gosta de fazer sexo em lugares inusitados. Alguns dos melhores locais do mundo para se fazer sexo em público estão aqui. Já foram marcados locais de vários países. Em terras brasileiras, apenas a Ilha Comprida, MS, foi inserida no mapa. Com certeza há mais. Participe e envie uma foto do local mais inusitado em que você já fez sexo.

*Os nomes reais das fontes foram preservados.

Empreendedorismo é marca registrada dos vendedores ambulantes

Circulando pelas ruas da capital baiana, durante a noite, trabalhadores (as) investem na simpatia para agradar clientela e gerar lucros

Uma noite movimentada e o ex-vendedor de eletrodomésticos, Osias Figueiredo tira o que levaria três meses para ganhar no antigo emprego. O principal produto vendido por ele é o cachorro quente, no valor de R$ 2,00. Quem também tem renda média mensal superior a três vezes o salário mínimo é o ex-garçom, Jorge Sousa, que há 20 anos vende guloseimas.

O vendedor ambulante, Osias Figueiredo começou a venda de lanches em um isopor, e hoje após 28 anos, já possui uma mini-van, onde comercializa lanches nos dias de festa em frente a Boate Madrre. Faturando R$ 1.200 numa noite, o ambulante veterano sustenta três filhos. Osias é seu próprio patrão, mas confessa que o trabalho é incerto, “sendo ambulante eu posso me administrar, fazer os meus horários, sem ter que dar satisfação a ninguém, mas é uma atividade inconstante, só garantimos o nosso quando as pessoas têm dinheiro para gastar”, ressalta.

Uma característica do trabalho de Osias é a relação amigável com os freqüentadores e funcionários da boate. Ele revela que o tempo em que está no ramo permitiu-lhe algumas regalias, como, entrada gratuita nas festas e a conquista do direito de não ser importunado pelo “rapa” durante as blitzes. “Eles não me incomodam, por que comercializo meus lanches numa towner, preparada especialmente para isso”, destaca.

Um dos fatores que contribuíram para Osias tornar-se vendedor autônomo foi o desemprego. Segundo as informações da Pesquisa de Emprego e Desemprego da Região Metropolitana de Salvador, a redução da taxa média anual de desemprego passou de 21,7% em 2007 para 20,3%, em 2008. A diminuição de 6,5% resultou na geração de 39 mil ocupações, dentre elas, a de vendedor ambulante.

Para a coordenadora da Pesquisa, Ana Margareth Simões, “Quando se trata de período de expectativas ruins para a economia, a auto-ocupação, principalmente aquelas de caráter mais instável tendem a crescer, pois as oportunidades de encontrar uma ocupação mais formalizada se reduzem”, esclarece a economista. Esse mesmo caminho foi seguido por Jorge Sousa, vendedor ambulante de longas datas. Vinte dos seus 44 anos de idade foram dedicados à venda de balas, chocolates, salgadinhos, dentre outras centenas de variedades que enchem o carrinho.

Jorge sai do Alto da Chapada do Rio Vermelho, as seis da manhã, em direção a porta do Colégio ISBA e permanece no local até às 21h30. Atendendo sempre com um sorriso estampado no rosto, para ele uma boa relação com os clientes é importante para o sucesso do negócio, “faço amizade de acordo com cada cliente, tem gente que não quer ser amigo”, confessa. Assim como Jorge e Osias, outros 14,6 milhões de pessoas desempenham alguma atividade empreendedora, ou seja, cerca de 12,02% da população brasileira adulta, segundo dados do Sebrae.

A edição anual da pesquisa GEM 2008 (Monitoramento Global da Atividade Empreendedora numa tradução livre) - um estudo que compreende a relação entre o empreendedorismo e o desenvolvimento econômico dos países do G-20-, revela que o Brasil está em terceiro lugar com visão empreendedorora.

Conhecido também como porta-voz das festas, os ambulantes, em sua maioria, agradam a clientela pela maneira divertida que atendem. Um caso que exemplifica essa relação é o da publicitária, Ilka Danusa Correia, que procura sempre conversar com esses trabalhadores. “Eu acho que a maioria desses ambulantes tem uma visão empreendedora, eles sabem criar estratégias para melhorar o seu desempenho. Além disso, eles têm conhecimento dos eventos que acontecem na cidade, são os verdadeiros garotos propagandas”, ressalta a publicitária.

Uma noite que dura uma eternidade

Por: Daniela Pereira

Corredores lotados, portas abrem e fecham com freqüência, correria, apreensão, sangue e lágrimas. Esse é o cenário que podemos registrar em uma noite de final de semana no Hospital Geral do Estado (HGE). Um hospital, que recebe cerca de 70 ocorrências durante a semana, tem esse número elevado no período entre sexta feira e domingo. O maior Hospital da Bahia, torna-se o pequeno quando abriga seus pacientes, muitas vezes, vindos de fora da cidade.
Dependendo do dia da semana e do acontecimento, os corredores ficam lotados. Os médicos escolhem quem será atendido primeiro, por critérios de gravidade de estado de saúde. Os policiais, que trazem vítimas para serem socorridas, se misturam com os enfermeiros, maqueiros e pacientes. Os familiares tornam o ambiente altamente barulhento e movimentado. Frases como: “Eu avisei a ele que não saísse” ou perguntas do tipo “E agora o que será de minha vida?”, são ouvidos à todo tempo, entre os visitantes em meio à abraços e choro.
Os enfermeiros prestam os primeiros socorros já nos corredores da instituição. Muitas vezes precisam dar as respostas que angustiados familiares querem ouvir. “Não se preocupe ele ficará bem”, os enfermeiros dizem para evitar mais turbulência no local. Outros não têm tanta paciência e ignoram o sofrimento dos parentes das vítimas, encaminhando com rapidez o paciente para o interior do hospital. Enquanto isso, os médicos aguardam os prontuários dos enfermeiros para iniciar os atendimentos.
Na noite de final de semana, geralmente quem ocupa os bancos de espera, em frente ao posto policial do hospital, são namorados (as) ou amigos que aguardam notícias. “Estou aqui esperando a enfermeira para saber do estado do meu colega”, relata o entregador de pizza, Márcio de Almeida de 23 anos. Segundo ele, o colega, Valnei Silva Carvalho, de idade ignorada, estava na carona da moto, quando eles caíram após uma fechada de um carro Celta, de placa policial ignorada.
Casos de todos os tipos e de todo o Estado chegam ao HGE. De acordo com o vigilante do local, que não quis se identificar, a maioria das entradas à noite é proveniente de causas naturais, como infarto ou problemas de respiração, também de conseqüência de excesso de álcool, confronto entre bandidos ou policias e brigas diversas.

Devido à deficiência na saúde pública, muitos chegam ao local em carros emprestados de municípios vizinhos à Salvador. “Meu filho teve que ser transferido para cá porque lá não aparelhos para a cirurgia dele”, relatou a dona de casa Claudete da Silva Costa de 49 anos. Com uma expressão de cansaço, Claudete comprava um lanche após trazer o filho de 19 anos que sofreu gravas queimaduras no município de Elísio Medrado, à 240km de Salvador. Passar uma noite em local como o HGE, pode durar uma eternidade, não só para quem é paciente. Mas também, para quem observa e se sente inútil diante de tanto desespero.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Gastronomia soteropolitana: a volta ao mundo em 70 dias

França, Itália, Japão, Tailândia, Portugal, Espanha... Mesmo quem nunca viajou para fora do Brasil não encontra dificuldades para entrar em contato com a cultura das mais diferentes regiões e países. Com o passar dos anos, a cidade do maior carnaval de rua e da alegria incontestável vai ganhando ares também de região cosmopolita. Principalmente, quando o assunto é gastronomia.
Enquanto Phileas Fogg (personagem de Júlio Verne) precisou de 80 dias para fazer a volta ao mundo e manter contato, mesmo que superficial, com as mais diferentes culturas, qualquer soteropolitano, munido de espírito de aventura e curiosidade, assim como Fogg, é capaz de vivenciar, em um prazo um pouco menor, sensações semelhantes, pelo menos quando o assunto é paladar, visto que são aproximadamente 70 ambientes especializados em comidas típicas de outros países.
Os restaurantes mexicanos e italianos são, geralmente, os mais freqüentados por terem preços razoáveis. O Alfredo di Roma, Ondina, oferece pratos típicos com preços que podem chegar a R$39,90. Da mesma forma, o Sukiyaki, Rio Vermelho, garante um farto almoço executivo por R$19,90 o buffet. Os clientes buscam conhecer de maneira mais específica um pouco da cultura do país que nunca foram ou que pretendem, um dia, conhecer. Sandoval Carvalho, empresário, é frequentador assíduo do Chez Bernard, especializado na comida francesa. “Toda vez que venho aqui, consigo experimentar um pouco mais do país que amo tanto”, diz empresário que já visitou a França três vezes.
Para ajudar na ambientalização o restaurante é muito requintado com vários quadros da França expostos na parede e cadeiras no estilo Luís XV. O Chef belga Laurent Rezette disse que a gratificação do cliente é a maior felicidade para quem trabalha na cozinha. “Eu também invento as receitas na hora, acredite. Daí ofereço o prato de mesa em mesa para ver se os clientes gostam”, contou Rezette, muito entusiasmado.
“Apesar de nunca ter ido a outro país, Salvador me proporciona o bem estar em relação à gastronomia e me permite viajar por muitos lugares sem sair daqui”, disse Marluce Silva, secretária executiva, enquanto tomava uma taça de vinho ao lado do marido.
A cada dia que passa a cidade fica sempre mais cheia de diversificações na gastronomia mundial e além de servirem comidas típicas, ainda colocam os clientes para dançar. “A moda de se freqüentar restaurantes com comidas típicas de outros países é o reflexo da tentativa do indivíduo de se inserir num contexto de diversidade”, afirmou o sociólogo Rafael Portinho. “Aquele que não tem a sensibilidade de experimentar outras culturas acaba se sentindo ‘de fora’ do processo, um ‘café-com-leite’ no jogo das interações sociais”, acrescentou.
Salvador possui restaurantes portugueses, chineses, japoneses, franceses, tailandeses, árabes, asiáticos, italianos e astros-húngaros. O público visita porque gosta, tem vontade de experimentar novos pratos e ter contato com outras culturas. Pagar R$70,00 (preço médio por pessoa dos ambientes mais sofisticados), para estas pessoas, na maioria das vezes é um prazer. Sair da rotina e sentar-se em uma mesa com amigos ou apenas uma companhia, pedir um vinho e logo em seguida solicitar uma lagosta grelhada com molho de aspargos, servida na própria casca e com arroz de legumes, é uma oportunidade que nem todos têm. Em 70 dias, um soteropolitano poderá fazer uma volta ao mundo gastronômico sem sair da cidade.