quinta-feira, 18 de junho de 2009

Fecha o bar que o buzu vai passar!

Por Alice Coelho

É uma terça-feira de março: um dia de movimento nos bares da orla de Salvador. A cidade turística, com quase 3 milhões de habitantes e com fama de festeira dorme cedo. O que acontece na capital, que recebeu cerca de 3,5 milhões de visitantes em 2008 – número maior que a população local, é que sua vida noturna é curta.

A noite que deveria ser badalada, acaba antes que o cliente queira ir embora. “A maioria dos bares da orla fecha antes da meia noite”, afirma a estudante Priscila Ribeiro.

Acompanhada de mais dois amigos, a estudante já se deparou com situações em que o bar encerrou as atividades antes da vontade dela e de seus colegas irem embora. O que fizeram? Foram frustrados para casa ou decidiram por comer o feijão, o mocotó, a rabada e outros. As opções foram os bares 24 horas, postos de gasolinas e bares de bairro.

Vantagem para os bares 24 horas. Ao passo que os estabelecimentos convencionais alegam que não há clientes para além da meia noite, Sandro Leite, que gerencia um estabelecimento desse tipo no Rio Vermelho, diz que público tem, mas que a questão maior é a dificuldade de transporte. “Também tem que ter ônibus”, diz o gerente. “Quem vem para cá, são os funcionários dos bares vizinhos, gente que vem de aniversário, dos outros bares”, completa. Segundo ele, quem sai do trabalho entre 12h e 3h da manhã tem que ficar fazendo hora até o ônibus passar.

O gerente de bar Sandro Leite garante que há público para a noite em SalvadorJá Joseval Faustino, gerente de um bar da orla, não consegue ver o problema do transporte coletivo. Segundo ele, os funcionários não encontram empecilhos para voltar para casa. Usam os ônibus da madrugada - o pernoitão ou fazem uma “vaquinha” para ir de táxi.

Joabe utiliza transporte clandestino para ir do Rio Vermelho para PlataformaHá uma forte evidência de que não há preocupação da maioria dos empresários com o transporte seguro dos funcionários na volta para casa. O garçon Joabe Alves dos Santos, por exemplo, trabalha no Rio Vermelho e sai entre 12h e 2h da manhã em direção ao bairro Plataforma usando transporte clandestino.

Essa dificuldade mobilizou a Abrasel (Associação de Bares, Restaurantes e Similares), a procurar pela Secretaria de Transporte Público do município. Um mapeamento foi solicitado pela secretaria à Associação e deve ser finalizado até Junho desse ano. “É a mais clara evidência que há mercado”, pontua o presidente da Abrasel, Luiz Marques. Para ele, a ausência de transporte é o fator limitador dessa demanda. “As pessoas não tem como ir e o colaborador tem dificuldade de voltar”, assinala.

Uma outra questão que não pode deixar de ser mencionada é a segurança. O bar que Faustino administra, por exemplo, finaliza seu expediente entre 1h30 e 2h da manhã, quando o gerente diz não existir mais clientela. Ele considera arriscado deixar o bar aberto na madrugada. “Depois de um certo horário começa a aparecer gente estranha”, diz ele. “Eles pensam somente na segurança deles. Não é por nós”, rebate a estudante Priscila Ribeiro.

Sob a perspectiva da presidência da Abrasel, a segurança também é um dos motivos que inibe a clientela dos bares. Marques aponta um outro fato: a questão da Lei Seca. Nesse sentido, ele reforça a necessidade de melhorar o transporte público. “Não tenho dúvida que aumentaria a circulação de renda”, declara.

Salvador precisa acordar. Ou melhor, a cidade que recebe mais de 3 milhões de turistas, não pode dormir tão cedo.

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