quinta-feira, 18 de junho de 2009

Uma noite que dura uma eternidade

Por: Daniela Pereira

Corredores lotados, portas abrem e fecham com freqüência, correria, apreensão, sangue e lágrimas. Esse é o cenário que podemos registrar em uma noite de final de semana no Hospital Geral do Estado (HGE). Um hospital, que recebe cerca de 70 ocorrências durante a semana, tem esse número elevado no período entre sexta feira e domingo. O maior Hospital da Bahia, torna-se o pequeno quando abriga seus pacientes, muitas vezes, vindos de fora da cidade.
Dependendo do dia da semana e do acontecimento, os corredores ficam lotados. Os médicos escolhem quem será atendido primeiro, por critérios de gravidade de estado de saúde. Os policiais, que trazem vítimas para serem socorridas, se misturam com os enfermeiros, maqueiros e pacientes. Os familiares tornam o ambiente altamente barulhento e movimentado. Frases como: “Eu avisei a ele que não saísse” ou perguntas do tipo “E agora o que será de minha vida?”, são ouvidos à todo tempo, entre os visitantes em meio à abraços e choro.
Os enfermeiros prestam os primeiros socorros já nos corredores da instituição. Muitas vezes precisam dar as respostas que angustiados familiares querem ouvir. “Não se preocupe ele ficará bem”, os enfermeiros dizem para evitar mais turbulência no local. Outros não têm tanta paciência e ignoram o sofrimento dos parentes das vítimas, encaminhando com rapidez o paciente para o interior do hospital. Enquanto isso, os médicos aguardam os prontuários dos enfermeiros para iniciar os atendimentos.
Na noite de final de semana, geralmente quem ocupa os bancos de espera, em frente ao posto policial do hospital, são namorados (as) ou amigos que aguardam notícias. “Estou aqui esperando a enfermeira para saber do estado do meu colega”, relata o entregador de pizza, Márcio de Almeida de 23 anos. Segundo ele, o colega, Valnei Silva Carvalho, de idade ignorada, estava na carona da moto, quando eles caíram após uma fechada de um carro Celta, de placa policial ignorada.
Casos de todos os tipos e de todo o Estado chegam ao HGE. De acordo com o vigilante do local, que não quis se identificar, a maioria das entradas à noite é proveniente de causas naturais, como infarto ou problemas de respiração, também de conseqüência de excesso de álcool, confronto entre bandidos ou policias e brigas diversas.

Devido à deficiência na saúde pública, muitos chegam ao local em carros emprestados de municípios vizinhos à Salvador. “Meu filho teve que ser transferido para cá porque lá não aparelhos para a cirurgia dele”, relatou a dona de casa Claudete da Silva Costa de 49 anos. Com uma expressão de cansaço, Claudete comprava um lanche após trazer o filho de 19 anos que sofreu gravas queimaduras no município de Elísio Medrado, à 240km de Salvador. Passar uma noite em local como o HGE, pode durar uma eternidade, não só para quem é paciente. Mas também, para quem observa e se sente inútil diante de tanto desespero.

Nenhum comentário:

Postar um comentário